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sábado, 26 de agosto de 2017

Felicidade e sofrimento


«Sempre fui considerada uma pessoa excessivamente exigente. Procurei exigir-me muito a mim mesmo, sobretudo desde que comecei a minha carreira profissional. 
Também procurei exigir àqueles que se encontravam à minha volta. Pensava que era essa a minha missão e pensava também — sem admitir outro tipo de raciocínios — que se os outros não conseguiam o mesmo êxito que eu era, simplesmente, porque não se esforçavam tanto».

São palavras de um homem de negócios numa entrevista concedida a uma rádio local. Mais ou menos assim, continuava ele o relato da sua vida:
 «Custava-me muito compreender que houvesse pessoas que não conseguiam trabalhar ao mesmo ritmo que eu. Tenho de reconhecer que, de algum modo, os maltratava e os desprezava por causa disso. 
E lá em casa — com a minha mulher e com os meus filhos — era exatamente a mesma coisa. 
Não admitia falhas de nenhum tipo. As coisas eram para serem feitas custasse o que custasse. 
O resto eram simples justificações de gente preguiçosa».

«Até que um dia fiquei doente. Uma doença inesperada e totalmente imprevista. 
E tudo mudou da noite para o dia. Senti-me como um pneu a esvaziar. 
Comecei a perceber que a vida não era tão simples como eu havia pensado até então. Dei-me conta de que os outros também sofriam. 
Compreendi que não reparar nessa dor era uma atitude inumana. Assim tinha vivido eu durante tantos anos».

«Antes de ficar doente, eu era exageradamente irascível: tudo me irritava e tudo me fazia ferver em pouca água. Agora, pelo contrário, tornei-me muito mais sereno e compreensivo. 

O sofrimento temperou-me o carácter. Fez-me compreender que há pessoas neste mundo — à nossa volta — que sofrem muito. 

Há pessoas que vivem com muitas dificuldades — talvez, em parte, por culpa nossa. 
Cada um de nós devia aprender a deter-se diante do sofrimento dos outros e fazer o possível por remediá-lo».

«Às vezes, só é possível consolar. Isso não é pouco, nem muito menos algo inútil. 

Aprendi que, com o simples fluir de palavras que infundem esperança, já se alivia muito o coração de quem sofre. 
Quantas pessoas necessitadas de compreensão e de consolo neste mundo! 
Quanta pobreza espiritual! — tantas vezes maior e mais envergonhada que a pobreza material».

É um relato de vida que faz pensar. 

Como é diferente o modo como as pessoas encaram os sofrimentos nesta vida: a umas, ele parece que as torna mais humanas; 
a outras, pelo contrário, faz-lhes perder a esperança e a alegria de viver. 
A uns, cura-os da tendência para o egoísmo que todos temos dentro. 
A outros, pelo contrário, enche-os de cepticismo e de amargura.

É impossível viver nesta Terra sem algum tipo de sofrimento. Por isso, podemos e devemos ser felizes apesar dessa presença constante que nos acompanhará durante todo o nosso caminho — de um modo especial nos últimos momentos. 
Para que isso seja possível, um cristão sabe que deve olhar para Jesus pregado na Cruz. 
À primeira vista — disse Bento XVI aos jovens — a Cruz parece ser a negação da vida. 
Na realidade, é exatamente o contrário! 

Ela é o «sim» de Deus ao homem. 
Ela é a expressão máxima do Seu Amor por nós. 
Ela é a única nascente da qual brota a vida eterna.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

quarta-feira, 8 de junho de 2016

A melhor herança a transmitir




Uma herança, em sentido abrangente, é um conjunto de bens que se transmitem de pais para filhos. É um “tesouro” maravilhoso que nos ajuda a não começar a partir do nada a nossa vida. Revela-nos, entre outras coisas, que não caímos do céu numa nave espacial. Viemos a este mundo no seio de uma família, com as suas tradições e as suas posses, tanto materiais como espirituais. A partir da nossa identidade ― em grande parte herdada dos nossos pais ― podemos começar a “construir” a nossa vida.

Além disso, dar “riquezas” aos filhos é a felicidade máxima dos pais. Desejam ajudar em tudo o que lhes for possível. Estão dispostos a passar todo o tipo de privações para que os seus filhos triunfem na vida e sejam verdadeiramente felizes. Eles são a sua alegria e a sua coroa!

Pergunta oportuna para que os pais se façam a si próprios: qual é a melhor herança que podemos deixar aos nossos filhos?

Resposta: a fé em Jesus Cristo.

Porquê?

Porque é a única coisa verdadeiramente importante.

Porque é uma riqueza que não pode ser roubada. Porque dá um sentido último à vida, para além do mero triunfo humano, que nunca é completamente possível. Porque nos revela a nossa grandeza e a nossa missão. Porque nos diz que caminhamos para a casa do Pai e não para um simples buraco na terra ― por muito bonito que seja o mausoléu!

Porque nos enche de Esperança ― com letra maiúscula ― que é a única virtude onde a alegria genuína se pode apoiar.
Mas, atenção!

A fé transmite-se pelo testemunho pessoal dos pais. Não é um mero ensinamento teórico. É a comunicação de uma mensagem de vida! A fé só é convincente quando se vê encarnada. Transmite melhor a fé não quem sabe mais, nem quem é mais inteligente, mas aquele que melhor vive de acordo com ela.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Felicidade e sofrimento


......
«Até que um dia fiquei doente. Uma doença inesperada e totalmente imprevista. E tudo mudou da noite para o dia. Senti-me como um pneu a esvaziar. 
Comecei a perceber que a vida não era tão simples como eu havia pensado até então. 
Dei-me conta de que os outros também sofriam. 
Compreendi que não reparar nessa dor era uma atitude sem humanidade. Assim tinha vivido eu durante tantos anos».

«Antes de ficar doente, eu era exageradamente irascível: tudo me irritava e tudo me fazia ferver em pouca água. Agora, pelo contrário, tornei-me muito mais sereno e compreensivo. 
O sofrimento temperou-me o carácter. Fez-me compreender que há pessoas neste mundo — à nossa volta — que sofrem muito. 
Há pessoas que vivem com muitas dificuldades — talvez, em parte, por culpa nossa. 
Cada um de nós devia aprender a deter-se diante do sofrimento dos outros e fazer o possível por remediá-lo».

«Às vezes, só é possível consolar. Isso não é pouco, nem muito menos algo inútil. 
Aprendi que, com o simples fluir de palavras que infundem esperança, já se alivia muito o coração de quem sofre. 
Quantas pessoas necessitadas de compreensão e de consolo neste mundo! 
Quanta pobreza espiritual! — tantas vezes maior e mais envergonhada que a pobreza material».

É um relato de vida que faz pensar. Como é diferente o modo como as pessoas encaram os sofrimentos nesta vida: a umas, ele parece que as torna mais humanas; a outras, pelo contrário, faz-lhes perder a esperança e a alegria de viver. 
A uns, cura-os da tendência para o egoísmo que todos temos dentro. 
A outros, pelo contrário, enche-os de ceticismo e de amargura.

É impossível viver nesta Terra sem algum tipo de sofrimento. Por isso, podemos e devemos ser felizes apesar dessa presença constante que nos acompanhará durante todo o nosso caminho — de um modo especial nos últimos momentos. 
Para que isso seja possível, um cristão sabe que deve olhar para Jesus pregado na Cruz. 
À primeira vista — disse Bento XVI aos jovens — a Cruz parece ser a negação da vida. 
Na realidade, é exatamente o contrário! 
Ela é o «sim» de Deus ao homem. 
Ela é a expressão máxima do Seu Amor por nós. 
Ela é a única nascente da qual brota a vida eterna.


Pe. Rodrigo Lynce de Faria

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O camponês e o burro


Era uma vez um camponês que tinha um burro. Um dia o animal caiu acidentalmente num poço e não conseguia sair de lá. O camponês tentou várias vezes libertar o burro, mas não era possível. Pediu ajuda a uns amigos, mas mesmo assim não conseguiram nada. Ao fim de vários dias desistiu. O poço estava seco, o burro estava velho e a única solução era enterrá-lo lá.


Pegou numa pá e começou a deitar terra no poço. O burro ficou desesperado ao aperceber-se do que estava a acontecer. Começou a zurrar cheio de amargura. Fazia dó ao camponês, mas ele não via outra solução. Até que num momento determinado deixou de ouvir o animal. Aproximou-se com temor da boca do poço para contemplar o cemitério. Com espanto viu algo insólito. Cada vez que o burro recebia a terra em cima, sacudia-a com decisão e pisava sobre ela. Com esta operação, na qual estava profundamente concentrado, já tinha subido mais de um metro dentro do poço. O camponês sorriu. Continuou a deitar terra e em pouco tempo o burro estava cá fora.


Todos nós temos dificuldades na vida. A diferença está no modo como reagimos diante delas. Existem pessoas que passam a existência a queixar-se, deixando-se soterrar pelas contrariedades. São pessimistas por natureza. Olham com ironia para aqueles que parecem felizes. Pensam que são ingénuos, doidos, que ainda não descobriram que esta vida não tem nenhum sentido. Não respeitam nada. Para eles não há nada que seja sagrado. Tudo se pode banalizar, ridicularizar, porque nada tem sentido. E se tem, não pensam dedicar nem cinco minutos a pensar nele. Talvez tivessem que mudar de vida, de atitude. Isso exige esforço e dá trabalho. Nada vale a pena, porque a alma é pequena.


Um cristão sabe que isso não é verdade. Sabe que foi criado por Deus por amor e que está chamado a viver com Ele para sempre na eternidade. Sabe que a sua vida tem um sentido e que as dificuldades que lhe surgem também. Tem uma profunda confiança em Deus e não duvida que, como diz São Paulo, “tudo é para bem” (Rom 8, 28). Esta certeza fá-lo encarar as contrariedades como aquilo que são: uma oportunidade para crescer. Crescer no amor a Deus e crescer no amor ao próximo. Por isso, quando as dificuldades aparecem, sacode-as de cima com oração, esforço e optimismo. Também com a serenidade de quem sabe que a felicidade em plenitude não pode ser alcançada nesta vida. Está reservada para a futura.


E depois pisa essas dificuldades e assim robustece a sua fé e aproxima-se mais da vida que não terá fim. Diante das contradições não perde a paz, porque sabe que tudo procede do amor. Tudo está ordenado à salvação do homem, e Deus, que é Amor, não permite nada que não seja com essa finalidade.


Pe. Rodrigo Lynce de Faria